As sombras provocadas pelas pedras que ladeiam o passeio marginal e a sua possível descodificação.
Figuras inusitadas, provocantes, desencadeadoras de pensamentos que desencadeiam arrepios aos passantes. São horas matinais, horas onze de um dia solarengo que se antevê lindo apesar do ventinho que, sorrateiramente, nos penetra as roupas em carícias gostosas. Fui até ao limite do querer do corpo, este que teima em não aceitar o que lhe impõem. Refrescar a mente leva-me a aceitar o que há pouco parecia impossível.
Resolvo descer, cuidadosamente, os pedregulhos que me separam das areias finas da praia, deixando lá para cima de mim o forte, sentinela empedernida, porém orgulhosa do seu passado, passado que foge, que pouco parece querer dizer aos milhares de veraneantes mais preocupados com o facto de puderem usufruir de um dia mais ao menos bem passado, se possível, esparramados no extenso areal.
Sem quase dar conta,eis-me na praia a conversar com um desconhecido que teimava ter visto, ainda agora, uma tartaruga gigante a tentar chegar à praia. Incrédula,respondi-lhe que, de certo, estava com visões. Como eu teimava prosseguir a minha caminhada, voltou-se para trás, agarrou-me pelo braço, e bradou - «Ali!! Não vê ali uma tartaruga? É, é um a tartaruga-pedra ou uma pedra-tartaruga. Como queira!»
«Efectivamente! É uma tartaruga. Nunca reparei nesta pedra!! Hoje há maré baixa, e ela vê-se lindamente!»
O meu interlocutor já se fora, deixando-me com as minhas cogitações, os meus solilóquios.
Sentei-me, sem mesmo querer, em cima do dorso da inesperada criatura e esta pareceu esboçar um leve movimento com a cabeça. Esta ilusão fez-me pensar no quanto as suas entranhas petrificadas teriam para me contar!
Mas, instantes passados, eis que uma catrefa de garotos invade o meu espaço, aninhando-se em redor desta tartaruga-pedra, qual palco de tantas vidas, de tantas histórias!
Luisete Baptista