segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

“ DESPE-ME “ de Paula Pereira

O que mais me surpreende na poesia é o eterno constatar de que o sentimento e a música andam de mãos dadas a fim de constituírem um corpo harmonioso, que é, em última análise, o próprio poema ou, porque não, qualquer pedaço de prosa. Por isso, segundo João de Melo, “...todo o poema é ao mesmo tempo dor e canção, desamparo e amor, solidão e solidariedade, desespero e esperança, escuridão e alarido - e há sempre um lado simultaneamente nocturno e diurno naquele que escreve o poema. (...) a poesia é um trabalho da sensibilidade e do ouvido...” (fim de citação). Sendo assim, o poeta é um ser privilegiado, porque é capaz de escutar as suas vozes interiores e também as do mundo exterior, as do outro ou dos outros. O poeta tem causas a defender que vão do “amor à amizade, da vida à morte, do júbilo à dor, da indignação à revolta, da rua e da casa e da casa do poeta à morada universal da humanidade inteira “(in João de Melo). “DESPE-ME” de Paula Pereira encaixa nesta minha reflexão inicial, já que, desde o primeiro ao último poema há como que um exteriorizar, um sair de si para o outro ou para um outro, aquele “tu” que dialoga ao longo de toda a obra com o sujeito poético, o “eu” transformado em poesia. São vários os despires deste “eu”, ora demasiado atormentado, ora demasiado apaziguado, nesta mundividência poética abraçada com paixão ao longo de todos os poemas. Desde o primeiro texto que se denuncia a presença de um quase contar, narrar em verso o que de muito fluido, arrasador e plasmado vai na alma da poetisa, melhor dizendo, na alma deste sujeito poético feminino. O próprio título leva-nos à certeza de que, subjacente a todo este corpo poético, existe um interlocutor escondido, quiçá descoberto, despido em cada poema quando a poetisa o permite. Há, sem dúvida, um “eu” faminto de paixão que não receia a envolvência amorosa até ao paroxismo da sensibilidade, borrifada, porém, por múltiplas imagens e belas metáforas, não permitindo nunca que se caia na vulgaridade. O tal outro/o tu emerge, quase sempre, como depositário do “eu”, qual cofre fechado a sete chaves. Há momentos distintos que, na minha óptica, marcam o crescerem por dentro deste ser: há corpos famintos, mas também “Há sentires sem existência real” (pág.22). O entrelaçar de metáforas eróticas com a limpidez poética dos sentidos é conseguido pela mestria com que trabalha as palavras ricas em sonoridades várias. Caminhando pelas páginas, o “tu” vai executando, meticulosamente, a sua missão, a do título “Despe-me”, a qual pode ser encarada como um convite suave ou como uma onda arrebatadora, sentindo tudo de todas as maneiras (pág.37). Neste aparente desconcerto sentimental, várias vezes nos deparamos com o papel da escrita, da poesia como forma de apaziguamento das dores sentidas (pág.39,40,41). Aqui é o “tu” que solta “...as correntes da poesia.” E “De rabisco em rabisco vou escrevendo” (pág.44) ou vai rabiscando seus desejos, chegando a apelidar de parvo o coração porque “Teima em cultivar ilusões/Teima dar de comer aos sonhos”. E há paisagens a receber este turbilhão: há o pôr-do-sol; há o mar; há a noite; há a praia...etc. Há toda a humanidade para receber as palavras sentidas de Paula Pereira (pág. 87). Finalmente, no poema “ADEUS”, sugere-se que não houve adeus e “...os sentimentos sentidos ontem” parecem apaziguados pelo passar do tempo. Porém, o vivido por este sujeito e por este “tu” ocupará um “ outro lugar” dentro da memória sentimental do “eu. Nada consegue deter o AMOR. Eis aqui erecções de sentimentos; sensualidades quentes; tempestades de inquietações; beijos vigorosos; viagens inauditas; corações suicidas; gritos; egoísmos; invejas; medos; etc, etc. Agora, rapidamente, tenhamos coragem para substituir o título “DESPE-ME por “LEIA-ME”.
 Fig. Foz, 9/02/2008 Maria Luisete S. C. Baptista

sábado, 28 de janeiro de 2012

“Dans les forêts de Sibérie” Sylvain Tesson

Narrativa de viagem, diário de um viajante deste nosso jovem século XXI, entrelaçar de múltiplos conhecimentos que se intersectam com descrições dos locais visitados, com reflexões, com recordações, com memórias, com leituras quotidianas. Cabana, local de todos os encontros, interiores e ou exteriores, desprendimentos, deixares civilizacionais com o objectivo de redescobrir a essência da Existência, da vida em comunhão perfeita com a natureza agreste e agressiva do lago Baïkal, onde o elemento vital água assume o papel regenerador, de esperança. O tempo, com as suas manhas e as suas marcas, conduz a narrativa desde o seu início, recordando a todos a precariedade e a efemeridade do COSMUS. Abordagem das velhas dicotomias campo/cidade; mundo civilizado/ mundo selvagem; barulho/silêncio; paz interior/ paz exterior. Estilo marcado por uma sensibilidade artística, evidenciado nas muitas imagens, nas muitas metáforas criadas à volta da paisagem visitada.