O que mais me surpreende na poesia é o eterno constatar de que o sentimento e a música andam de mãos dadas a fim de constituírem um corpo harmonioso, que é, em última análise, o próprio poema ou, porque não, qualquer pedaço de prosa. Por isso, segundo João de Melo, “...todo o poema é ao mesmo tempo dor e canção, desamparo e amor, solidão e solidariedade, desespero e esperança, escuridão e alarido - e há sempre um lado simultaneamente nocturno e diurno naquele que escreve o poema. (...) a poesia é um trabalho da sensibilidade e do ouvido...” (fim de citação).
Sendo assim, o poeta é um ser privilegiado, porque é capaz de escutar as suas vozes interiores e também as do mundo exterior, as do outro ou dos outros. O poeta tem causas a defender que vão do “amor à amizade, da vida à morte, do júbilo à dor, da indignação à revolta, da rua e da casa e da casa do poeta à morada universal da humanidade inteira “(in João de Melo).
“DESPE-ME” de Paula Pereira encaixa nesta minha reflexão inicial, já que, desde o primeiro ao último poema há como que um exteriorizar, um sair de si para o outro ou para um outro, aquele “tu” que dialoga ao longo de toda a obra com o sujeito poético, o “eu” transformado em poesia. São vários os despires deste “eu”, ora demasiado atormentado, ora demasiado apaziguado, nesta mundividência poética abraçada com paixão ao longo de todos os poemas.
Desde o primeiro texto que se denuncia a presença de um quase contar, narrar em verso o que de muito fluido, arrasador e plasmado vai na alma da poetisa, melhor dizendo, na alma deste sujeito poético feminino. O próprio título leva-nos à certeza de que, subjacente a todo este corpo poético, existe um interlocutor escondido, quiçá descoberto, despido em cada poema quando a poetisa o permite. Há, sem dúvida, um “eu” faminto de paixão que não receia a envolvência amorosa até ao paroxismo da sensibilidade, borrifada, porém, por múltiplas imagens e belas metáforas, não permitindo nunca que se caia na vulgaridade. O tal outro/o tu emerge, quase sempre, como depositário do “eu”, qual cofre fechado a sete chaves.
Há momentos distintos que, na minha óptica, marcam o crescerem por dentro deste ser: há corpos famintos, mas também “Há sentires sem existência real” (pág.22). O entrelaçar de metáforas eróticas com a limpidez poética dos sentidos é conseguido pela mestria com que trabalha as palavras ricas em sonoridades várias.
Caminhando pelas páginas, o “tu” vai executando, meticulosamente, a sua missão, a do título “Despe-me”, a qual pode ser encarada como um convite suave ou como uma onda arrebatadora, sentindo tudo de todas as maneiras (pág.37). Neste aparente desconcerto sentimental, várias vezes nos deparamos com o papel da escrita, da poesia como forma de apaziguamento das dores sentidas (pág.39,40,41). Aqui é o “tu” que solta “...as correntes da poesia.”
E “De rabisco em rabisco vou escrevendo” (pág.44) ou vai rabiscando seus desejos, chegando a apelidar de parvo o coração porque “Teima em cultivar ilusões/Teima dar de comer aos sonhos”. E há paisagens a receber este turbilhão: há o pôr-do-sol; há o mar; há a noite; há a praia...etc. Há toda a humanidade para receber as palavras sentidas de Paula Pereira (pág. 87).
Finalmente, no poema “ADEUS”, sugere-se que não houve adeus e “...os sentimentos sentidos ontem” parecem apaziguados pelo passar do tempo. Porém, o vivido por este sujeito e por este “tu” ocupará um “ outro lugar” dentro da memória sentimental do “eu.
Nada consegue deter o AMOR. Eis aqui erecções de sentimentos; sensualidades quentes; tempestades de inquietações; beijos vigorosos; viagens inauditas; corações suicidas; gritos; egoísmos; invejas; medos; etc, etc.
Agora, rapidamente, tenhamos coragem para substituir o título “DESPE-ME por “LEIA-ME”.
Fig. Foz, 9/02/2008
Maria Luisete S. C. Baptista
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