São umas tantas histórias que se cruzam e entrecruzam no xadrez vivencial de uma tal personagem de seu nome Raquel, à qual chegam ecos de passados, presentes ou mesmo futuros antecipados. Raquel assume um papel primordial no conjunto narratológico apresentado, conseguindo estar presente e/ou ausente nos/dos momentos mais marcantes deste romance.
São narrativas/histórias que se perfilam ficcionais, mas que não afastam a possibilidade de pertencerem a um qualquer filão biográfico. Ela conduz a narrativa, deixando a João, seu neto, e Joana, sua aluna, a hipótese do futuro, já que sua filha Márcia se debate com a dificuldade de se sentir estável, pois vive em constante desassossego.
Socorrendo-me de Fernando Pessoa in Página Íntimas e de Auto-Interpretação: “A única realidade da vida é a sensação. A realidade em arte é a consciência da sensação. A Arte, na sua definição plena, é a expressão harmónica da nossa consciência das sensações, ou seja, as nossas sensações devem ser expressas de tal modo que criem um objecto que seja uma sensação para os outros. (…) Os princípios da arte são: cada sensação deve ser plenamente expressa, isto é, a consciência de cada sensação deve ser joeirada até ao fundo; a sensação deve ser expressa de tal modo que tenha a possibilidade de evocar o maior número possível de outras sensações.”
À força de tanto me ter embrenhado no estudo de muitas obras de cariz trágico ou mesmo de verdadeiras tragédias, acabei por influenciar o fio condutor das várias personagens de Gota de orvalho, sem que me desse conta, a não ser no exacto momento em que me exigem uma análise pessoal, um ponto de vista da Autora e não da narradora da história apresentada.
A luta que se opera dentro do interior de quase todas as personagens faz antever sofrimentos crescentes, peripécias múltiplas, reconhecimentos, clímaxes e prováveis catástrofes. Tudo isto aguça a curiosidade e a simpatia do leitor que se mantêm suspensas até aos desfechos incertos. Sente-se, desde o primeiro capítulo, a presença de um qualquer destino que apenas pretende manipular as pessoas e precipitar os acontecimentos.
Citando texto da contracapa:
Cota de orvalho faz jus ao provérbio africano «o coração é água profunda que esconde coisas desconhecidas». A construção do desconhecido acontece, nesta obra de ficção, pelo cruzamento de histórias e lances inesperados no xadrez vivencial. Raquel, presente ou ausente, está no centro da narrativa, a qual é tecida pelos ecos que soam e que compelem a memória a transformar os fragmentos caleidoscópicos das recordações em imagem de identidade. Estamos, pois, perante uma ficção sobre o desassossego e a procura, sendo estas ideias o centro da descrição possível da própria vida. Nesta, a nitidez das imagens e o reconto das experiências andam de mão dada com o misterioso e o enigmático.
Luisete Baptista

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