Uma escritora brasileira, de nome Maria Luiza Krarmer disse que “as histórias infantis e o lúdico encantam as crianças” e eu acrescento que eles nos perseguem a vida toda na medida em que, embora adultos, continuamos a deixarmo-nos levar por esse encantamento.
A metáfora subjacente à estrutura conceptual do conto infanto-juvenil “No Reino das Maravilhas”deixa antever um espaço físico onírico balizado por dois mundos opostos, como sempre acontece nos classificados contos de fadas e nas narrativas de maravilha.
Porém este, antes de nos deliciarmos com o narrado fundo fantástico, temos de referir o diálogo inicial entre David e a mãe, tomando assim o leitor conhecimento do motivo que levou aquela a optar por tal estrutura. O nosso presente disfórico perturba a harmonia da criança que, durante a noite, se desassossega com o que sonha. É por isso que a mãe lhe faz uma promessa: salvar a tal menina. Mais uma vez se recorre ao poder encantatório das histórias, dos contos e do papel modificador que poderá operar no seu ouvinte, no seu leitor. Esta narrativa encaixa, então, durante várias páginas, uma história principal que flui linearmente. Numa das balizas há um Palácio onde a família real vive feliz com o filho tão desejado. Todos os habitantes deste reino se envolvem na dura tarefa de tornarem o crescimento deste Príncipe sem dor, sem qualquer constrangimento. Aquele cresce e, de repente, torna-se melancólico, triste, infeliz. O mundo encantado das Fadas resolve ajudar o seu menino, enviando um Cavaleiro e um Cavalo percorrer todo um campo minado de obstáculos, mas que vão vencendo. Nos antípodas do Palácio, na outra baliza, encontram o que procuravam desde o início da viagem.
O projecto arquitectado pela Fada Madrinha do Príncipe só é entendível mesmo no final da narrativa, o que permite manter o leitor/ouvinte em suspenso até à última página, pois só nesse momento se descobre toda a verdade.
Restabelece-se, de novo, o diálogo entre filho e mãe, explicando esta que crescer dói e que, com o passar do tempo também ele será atingido pela seta do AMOR.
As ilustrações do meu amigo Fernando Saraiva acompanham, página a página, toda a envolvência narratológica, de forma bem viva e colorida, ajudando o leitor a melhor imaginar as situações que lhe vão sendo apresentadas por uma narradora omnisciente.
Escolas, bibliotecas, pais, educadores em geral, devem ter um papel interventivo no sentido de criar novos gostos de leitura nos jovens de hoje, para além das questões sociais da moda, do desporto e da banda desenhada carregada de violência. Haverá, certamente, inúmeros condicionamentos a impedir a generalização do gosto de ler pelos nossos jovens, mas, se desistirmos, o fosso entre os que lêem pouco e os que nada lêem, será abismal. E, segundo Daniel Sampaio “ em vez de dizermos que os jovens não lêem, arranjemos dentro de nós cinco minutos por dia para falar de um livro a alguém mais novo. E até pode ser que alguma coisa mude...”

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