segunda-feira, 11 de julho de 2011

"A Mulemba secou"

A mulemba secou.

        No barro da rua,
        Pisadas, por toda a gente,
        Ficaram as folhas
        Secas, amareladas
        A estalar sob os pés de quem passava.

        Depois o vento as levou...

                Como as folhas da mulemba
                Foram-se os sonhos gaiatos
                Dos miúdos do meu bairro.

        (De dia,
        Espalhavam visgo nos ramos
        E apanhavam catituis,
        Viúvas, siripipis
        Que o Chiquito da Mulemba
        Ia vender no Palácio
        Numa gaiola de bimba.

        De noite,
        Faziam roda, sentados,
        A ouvir, de olhos esbugalhados
        A velha Jaja a contar
        Histórias de arrepiar
        Do feiticeiro Catimba.)

                Mas a mulemba secou
                E com ela,
                Secou também a alegria
                Da miudagem do bairro;

        O Macuto da Ximinha
        Que cantava todo o dia
        Já não canta.
        O Zé Camilo, coitado,
        Passa o dia deitado
        A pensar em muitas coisas.
        E o velhote Camalundo,
        Quando passa por ali,
        Já ninguém o arrelia,
        Já mais ninguém lhe assobia,
        Já faz a vida em sossego.

                Como o meu bairro mudou,
                Como o meu bairro está triste
                Porque a mulemba secou...

        Só o velho Camalundo
        Sorri ao passar por lá!...



Aires de Almeida Santos, poeta Angolano de Benguela


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