segunda-feira, 11 de julho de 2011

No reino das maravilhas

Neste seu novo livro, feito em colaboração com Fernando Saraiva, que o ilustrou, Luisete Baptista propõe-nos o título «No reino das maravilhas».

Publicou anteriormente, também para um público infanto-juvenil, dois livros intitulados «A Mulemba» e «O Moleque das barrocas».

Como forma de apresentar este «No reino das maravilhas», começarei por lançar uma interrogação sobre este título.

Será que se trata de uma história cor-de-rosa, com reis e rainhas, príncipes e princesas, castelos e festas, fadas, passes mágicos e um fim feliz?

Se comparamos a construção de uma narrativa com a confecção de um bolo, poderemos dizer que a presente história tem todos os ingredientes acima referidos, mas não é propriamente uma história cor-de-rosa. Como assim?

Perguntarão vocês.

Por algumas razões que irei passar a mencionar e que servirão para levantar, espero que não em demasia, o véu sobre este livro.

Em primeiro lugar, porque o termo «maravilhas» é utilizado pela autora para descrever um espaço no qual a realidade e o imaginário se cruzam, ou seja, o plano do sonho.
Com efeito, nesta obra, tudo começa com o desassossego que um sonho recorrente provoca na criança que o tem.

Nesse sonho, há uma menina que grita porque, perdida, não consegue encontrar
o seu caminho. E o rapaz que sonha isso quer ajudar a menina, mas não sabe como.
É este quadro inicial que lança a narrativa, contada pela mãe que, ao contar uma história, quer aplacar a angústia do filho e transmitir-lhe os ensinamentos de alguém que já tem mais experiência da vida.

Este ponto deve ser retido: face à desorientação que sempre gera a angústia,
há que saber trilhar o caminho, pois é o caminho e o caminhar a melhor metáfora para descrever a própria vida, na qual as certezas andam sempre de mão dada com os enigmas.

No entanto, nesta condição de caminhantes em que nos defrontamos com as incertezas das direcções a seguir, temos de ser ajudados por algo que, não sendo certo, nos pode trazer significado e conforto. E esses algo são, essencialmente, os valores.

Ora, a presente narrativa é justamente sustentada por esses valores que nos devem acompanhar no caminho.

O primeiro desses valores é o amor, seja este expresso pelos afectos relativamente a quem nos é familiar, ou tenha ele a forma de uma promessa de paixão.

Neste segundo caso, o amor vai estar ligado ao valor do encontro. Será que cada um vai encontrar o seu amor?

A Luisete diz-nos, nas entrelinhas da narrativa, que a esperança no encontro é fundamental, mas que temos que contribuir com o nosso esforço para o alcançarmos.

É assim que nesta narrativa vamos encontrar uma série de adversidades, de lutas, de dificuldades relativamente às quais é preciso persistir se se quiser encontrar o príncipe encantado (e o príncipe desta história, de facto, persiste).

Este percorrer o caminho sem esmorecer a esperança no encontro, apesar das dificuldades que encontraremos é, com efeito, a mensagem que a mãe procura passar ao seu inquietado filho para o apaziguar, sugerindo a ideia de que o crescimento é precisamente isso e que a diferença entre as crianças e os adultos é que estes passaram a ser capazes de viver coexistindo como muitas perguntas sem respostas, com a dimensão de enigma e com a consciência do risco e da incerteza, ao passo que aqueles, para se sentirem seguros, têm que achar que para tudo há uma solução.

Mas o final do livro explica: nas coisas mais importantes a solução é o tempo. É este o verdadeiro mestre do amadurecimento, a estrada que pisamos na viagem que é a vida.
  Rui Grácio

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