“O MOLEQUE DAS BARROCAS”
Comentário:
Sem querer fazer propriamente uma apresentação do livro (hoje a apresentação será feita de outro modo), gostaria contudo de vos deixar alguns breves apontamentos sobre ele.
O primeiro apontamento é o de que, à semelhança do que se passa com A Mulemba — obra editada em 2005 —, também este livro se desenrola no aconchego da narrativa de uma mãe que conta e fala com o filho.
Digamos que a autora parece valorizar desde logo o acto da partilha dialógica como uma das dimensões essenciais da educação. É importante dividir experiências, sabedoria e recordações num espaço íntimo de acompanhamento e de crescimento partilhado pela palavra.
O segundo apontamento é o de que esta história evoca outros lugares (no caso, África) e um outro tempo (um tempo em que havia tempo para falar com os filhos, em que as brincadeiras não estavam ainda intoxicadas pela sofisticação, pelo supérfluo e pela voraz rotatividade da sofreguidão de novidades).
Nesta história, o tempo é lento, as brincadeiras são simples e o olhar ainda se fixa e não está refém da inquietude que para tudo faz olhar e que nada deixa ver. Pedagógico, este livro é também um acto subliminar, mas incisivo, de crítica.
O terceiro apontamento é de que não se trata de uma história de encantar ou de encantamento. É até, em certa medida, uma história desencantada, no sentido em que aos contos de fadas prefere valorizar os laços entre pessoas e a contingência dos percursos da vida. Com efeito, a narrativa não aposta na veloz sucessão de episódios e de vivências que muitas vezes marcam as histórias. Ao empolgamento imediato, prefere a Luisete uma certa distância narratológica. Uma distância que implica memória e que não deixa de marcar um outro tempo em que a magia natural das coisas não foi substituída pelo artificialismo dos modos de vida e das relações humanas.
O quarto apontamento é de que se trata uma história que valoriza o simples. Na narrativa não encontramos grandes sonhos ou projectos empolgadamente fantasiados. Pelo contrário, sente-se a consciência de que a vida se tece de pequenas coisas que se podem sentir com grandeza, e são essas pequenas coisas aquilo que da vida fica.
O quinto apontamento é de que se trata de uma história de amizade e de vida, escrita com a simplicidade que convém à amizade, e com a sensibilidade que convém à vida. Neste sentido trata-se de uma literatura genuína.
O sexto apontamento é de que o livro está ilustrado com belíssimos desenhos, muito em sintonia como o espírito que atrás referi e em consonância de uma expressividade que tem tanto de simples como de belo.
O apontamento final é para sugerir que leiam o livro.
Rui Grácio 16 de Março de 2007
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